1.08.2011

O povo quer falar com o presidente

por Joyce Gomes

A data: 10 de janeiro de 2003. O destinatário: presidente da República.

“Saudações
Senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva eu estou lhe escrevendo esta carta para conta a minha real situação eu estou passando (…)”.

O trecho é de uma carta publicada na Revista Piauí de Dezembro de 2009, escrita em uma folha de caderno por Francisca Edna dos Santos Feitosa, na época, moradora de uma favela na periferia de Teresina (PI). Edna cansou de passar fome. Resolveu desabafar e mostrar a vida difícil que levava: ela queria falar com o presidente. Qualquer semelhança com o desejo de João de Santo Cristo não é mera coincidência.

Também pudera. “Santo Cristo até a morte trabalhava, mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar”. Assim como o personagem de Renato Russo, quantos não são nesse Brasil afora os que por mais que se esforcem não conseguem ganhar nem um salário mínimo. Os que esperam que se cumpra a promessa de que “o seu ministro ia ajudar” tão ouvida no noticiário diariamente, especialmente em período de campanha eleitoral. São essas pessoas que escrevem ao Palácio do Planalto para fazer pedidos, críticas, sugestões, conselhos, ameaças, agradecimentos na esperança de serem ouvidos. São pessoas como Edna que buscam o mínimo da atenção daquele em que depositaram a esperança de uma vida mais digna.

“Olha senhor presidente eu tenho uma família muito grande trabalha alguns nas terras aleia mais agora eles tem que sair por que meu pai esta doente e não pode mais trabalha (…) senhor presidente eu estou passando fome eu tenho um butijão já esta com 6 meses que eu não troco ele por que não posso (…), senhor presidente eu lhe pesso que você tenha pena da minha situação e da minha familia nos queremos uma moradia digina e não podemos (…)”.

Cartas como a de Edna são catalogadas e respondidas pela equipe de 50 funcionários do Departamento de Documentação Histórica da Presidência da República. O governo de Dilma mal começou e a presidente já recebe cerca de 250 cartas por dia, segundo o diretor do Departamento, Cláudio Soares Rocha. Com Dilma no comando, o principal pedido é ligado à justiça, seguido de proteção social e, por último, previdência social. Cada solicitação é encaminhada aos órgãos responsáveis pelo assunto para dar um retorno a quem escreveu a carta. O pedido de Edna, por exemplo, foi encaminhado ao Ministério das Cidades, que cuida dos problemas de habitação.

Mas se engana quem acha que a equipe da Presidência trata as cartas como meros pedidos endereçados ao presidente. Com elas é possível identificar, por exemplo, onde as necessidades básicas da população não estão sendo atendidas devidamente. É por elas, também, que o governo sabe qual a região em que o presidente tem mais ou menos apoio da população. Com o conteúdo retirado das cartas, portanto, é possível construir estatísticas que servem de instrumento para medir o governo.

Alguns pedidos saem das estatísticas e são atendidos. Poucos com que a equipe se sensibiliza. O caso de Edna foi mais para o lado da sorte. Apesar de ter o pedido da casa negado pelo Ministério das Cidades, ela foi orientada a se inscrever no programa de habitação da cidade e acabou sendo sorteada. Levou, então, para o lado pessoal e agradeceu em mais uma das três cartas que enviou ao presidente:

“Saudações
Senhor presidente Luiz Inácio Lula da Silva eu lhe agradeso por ter me ajudado conseguir a minha casa própria que era o meu grande sono… mesmo com tudo o que acontece no Brasil hoje eu continuo acreditando (…)” – Trecho de outra, das três cartas que Edna enviou.

Como Edna, milhares de pessoas continuam acreditando e demonstram isso por cartas, e-mails, telefonemas ou pessoalmente. São pedidos de um povo carente, sofrido que procura um contato com o Planalto Central em busca de socorro. Edna teve sucesso. Um ou outro tem. Mas a maioria continua esperando o mínimo de assistência para sobreviver e, como Santo Cristo, não consegue o que queria quando vem pra Brasília. O povo só quer falar “pro presidente pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer”. E, na maioria das vezes, não tem a mesma sorte de Edna, cai no destino de João de Santo Cristo e morre sem conseguir.

Comentários

  • 0 0
    Caiya07.09.2011http://www.google.com/

    Always a good job right here. Keep rolling on trhguoh.

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  • 0 0
    Melvina06.09.2011http://www.facebook.com/

    No compliatns on this end, simply a good piece.

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    Igor Caribeño29.08.2011http://www.golpefinal.com

    Muito maneiro esse site! Excelente post com ótimo texto, esse da Joyce. Me amarrei …

    t+

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  • 1 0
    Raimundo Nonato10.08.2011

    A primeira estatística a ser construída a partir da carta da Sra. Edna é a qualidade da educação no país.

    De qualquer forma, ainda que a educação no Brasil tivesse qualidade, acredito que a mentalidade do povo não mudaria muito… Afinal, pedir é fácil, difícil é caminhar com as próprias pernas.

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  • 0 0
    Cynthia Filomena07.08.2011

    Bem legal! que venham os próximos textos e o filme

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  • 1 0
    Arnaldo Pereira06.08.2011

    Sou muito fã da música e estou aguardando o filme!!!
    Parabens à autora, sempre com textos muito interessantes que nos lembram de partes antológicas da canção!!!!
    VIVA O BRASIL CABOCLO

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  • 1 0
    Cezar Pinheiro06.08.2011

    Parabéns pelo texto! Realmente muito bom!

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  • 3 0
    Dayal05.08.2011

    Muito bom mesmo o texto da Joyce, como sempre!

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  • 3 0
    Juvenelson03.08.2011

    Mais um texto-sensação de JOYCE GOMES! Belíssimo!

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  • 3 0
    Gutemberg02.08.2011

    Muito interessante essas contextualizações entre o conteúdo da música e matérias do cotidiano do Brasil!

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    • Juvenelson05.08.2011

      Concordo Gutão!
      Os meus textos preferidos são os da Joyce Gomes com certeza. Ela tem uma sensibilidade especial não é mesmo?

  • 2 1
    jonas02.08.2011

    Edna, Edna, Edna.. você vai ficar resfriada, ahhaha

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